A voz de autor é um elemento de escrita que permite distinguir um autor dos demais.

É o que atribui ao autor uma identidade única e, também, um timbre de qualidade à sua escrita.

Quem escreve deseja que a sua escrita seja cativante; inspiradora. E falo de autores de prosa ou poesia; de quem escreve um romance ou artigos para um blog – quem escreve, ambiciona alcançar um estilo de escrita único.

Desejamos escrever com a nossa própria voz.

Textos sem voz do autor são estéreis, vazios de personalidade. Assim sendo, como pedir ao leitor para nos ler? Não tem como se identificar, não há vida por detrás das nossas palavras!

Hoje mostro-te como podes encontrar a tua voz de autor.

A voz de autor é fundamental na qualidade de um texto. Neste artigo mostro no que consta a Voz de Autor e, também, estratégias para encontrares a tua

O que é voz de autor?

Antes de definir o que é a voz de autor, esclareço o que não é:

  • não é o estilo de escrita do autor;
  • não é a sua técnica;
  • não é branding.

A voz de autor não é algo mensurável; é subjectivo mas, ainda assim, passível de ser definida e detectada. Não inclui somente a utilização de determinadas palavras ou estrutura dos textos: é muito mais.

A voz de autor é a forma pessoal do autor ver o mundo e como ele o traduz. Todos vemos uma laranja da mesma forma, porém, ao descrevê-la, cada um de nós usa a sua linguagem, a sua abordagem de texto, numa perspectiva única. Eu posso descrever a cor; tu a textura; outro o sabor,…

A voz de autor carrega as suas experiências e personalidade.

A agente literária Rachelle Gardner define a voz de autor assim:

your writer´s voice is the expressio of YOU on the page

És tu, como pessoa, que dás vida à escrita: atribuis emoções e sentires aos personagens.

O leitor quer essa fusão: quer sentir o que o personagem sente, ver pelos olhos dele. Só a tua voz, exclusivamente tua, vai oferecer isso.

Se leres outros artigos nesta temática, vais encontrar conteúdo semelhante ao meu artigo, contudo, a minha exposição e as minhas contribuições são únicas. Eu escrevi usando a minha voz: não imitei ninguém, não quis ser igual a outro autor: o meu artigo é único porque está escrito na minha voz (que inclui várias componentes, descritas mais à frente).

Ao leres outros artigos da minha autoria, vais encontrar pontos comuns: a forma de me relacionar contigo, a minha linguagem informal, a minha presença óbvia.

Se leres os meus contos irás identificar, também, a minha voz em cada um deles. A minha voz é consistente – apesar de mutável, dependendo se escrevo artigos para o blog ou ficção (mais sobre isto, adiante).

Escreveres fiel à tua voz de autor é escreveres com emoção, com os teus sentimentos, paixões e ódios, crenças, sonhos, desejos, medos e atitudes. Click To Tweet

A voz de autor é fundamental na qualidade de um texto. Neste artigo mostro no que consta a Voz de Autor e, também, estratégias para encontrares a tua.

Quais os componentes da voz de autor?

Personalidade:

Como te disse, a tua voz de autor deve espelhar-te: o que sentes, o que acreditas, o que te move. Através dela, os teus leitores  devem sentir-te.

Mas não sejas um intruso no texto, tu não és os teus personagens! Mas, em ficção (ao contrário de textos científicos ou técnicos, que se querem impessoais), a tua escrita deve ser humanizada.

A tua personalidade, como um todo e as tuas características individuais, influencia a tua voz de autor. Através dela, os leitores devem ser capaz de te sentir.

De mãos dadas com a tua personalidade, deves carregar na voz emoções. Deves imprimir na escrita os teus sentimentos sobre o tópico que escreves.

As sensações que queres provocar no teu leitor são despoletadas através da escrita – na tua entrega ao acto.

Tom

O tom que utilizas na escrita é o elemento mais importante da tua voz de autor.

Quando falas, revelas muito de ti e do teu estado de espírito; graças ao tom de voz. Na escrita é semelhante mas, em vez de alterações do tom de voz (apoiadas pela linguagem não verbal), usas pontuação, escolhes certas palavras em detrimento de outras, aperfeiçoas a sintaxe.

Ao comunicares através de escrita crias e aplicas “efeitos especiais”.

A união de cada elemento da tua escrita é o que a torna exclusivamente tua.

Como dizes é tão importante como o que dizes.

São vários os tons de voz que podes assumir: humor, drama, informal, sombrio, intimista, ousado, jovial ou sofisticado, irónico,…

O importante a reter é que o tom que assumires tem grande valor na tua voz de autor, será parte da tua marca.

Claro que não terás de usar sempre o mesmo tom de voz – terás de o ajustar ao que estás a escrever. Por exemplo, em contos eu uso um tom intimista e em artigos de blog, um informal.

Há vários factores que influenciam o teu tom (tipo de narrador, época que estás a descrever, o conteúdo,…) mas o importante é manteres a consistência: ao longo do texto e, também, no estilo que escreves.

Ritmo

Este é outro elemento de grande valor da tua voz: é através do ritmo que marcas o passo da tua escrita.

A forma como o fazes é através da estrutura das frases e parágrafos (o seu comprimento), aliterações, rimas ou pontuação.

Ao contrário do tom – em que entregas à escrita um elemento subjectivo -, o ritmo tem a ver com a sua parte técnica.

 


A voz de autor é mutável

Como autor, és um ser versátil. Poderás escrever em vários estilos, com profundidade ou apenas aflorares um tema; podes escrever contos ou romances; artigos informativos ou poemas. Seja o que escrevas, a tua voz é sempre um elemento essencial.

Ao contrário de muitos autores que defendem que a voz é construída, de raiz, eu acredito que ela nasce connosco. É pessoal e intransmissível e, apesar de a aperfeiçoarmos ao longo do tempo – com inspirações e aprendizagens – esteve sempre esteve em nós: é inata.

Mas, por ser pessoal e única, não faz dela um organismo estanque. Não! A voz de autor é mutável: dependendo do que escrevemos, adaptamos a voz (processo semelhante a quando falamos).

Se eu escrever um conto passado no século XVII não irei usar a mesma voz num passado a semana passada – para a primeira versão terei de me (tele)transportar até essa época e sentir como os personagens sentiam, viver nas casas gélidas de pedra ou conviver com os cheiros intensos.

Isoladamente, estes factores não compõem a minha voz mas, como um todo, fazem parte dela; vão-me afectar e, isso, vai-se reflectir na minha voz.

Assim, a tua voz de autor, apesar de única, é mutável.

Como podes encontrar a tua voz de autor?

Tens apenas de ser honesto.

A voz de autor não é adquirida ou copiada: é inspirada e aperfeiçoada.

A tua, brota e desenvolve-se dentro de ti.

Encontrar a tua voz é um processo – tens de escrever, escamotear e testar, incessantemente.

Tens de escrever, escrever muito. Para aperfeiçoares a tua voz, tens de variar, cortar elementos, acrescentar outros; experimentar técnicas diferentes.

Quando mais escreveres mais estás a desenvolver a tua voz de autor, ao ponto em será espontânea, não terás de pensar se determinado elemento lhe pertence ou se deves incluir outro – tu sabes.

Depois é respirar e deixar fluir. E continuar a escrever.

Além disso, lê autores com vozes fortes; com os quais te identificas: deles, bebe inspiração, testa as suas técnicas, escreve nos seus moldes, experimenta!


Vamos conversar

Define a tua voz de autor (a que já tens ou a que ambicionas ter).

Que elementos estão presentes? Como caracterizas o teu tom e o teu ritmo; consegues espelhar a tua personalidade nos teus textos?

Conta-me tudo!

 


 

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Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

4 Comments

    1. Multivocal – excelente 🙂
      Sem dúvida que a versatilidade é uma mais valia e, se a tivermos na escrita, poderá ser muito útil. Por outro lado, se mantivermos a mesma voz num estilo semelhante (por exemplo, em romances da mesma época), irá facilitar uma relação a longo prazo com os nossos leitores. Caso escrevamos em vários registos, essa pluralidade é ouro (sendo o Fernando Pesssoa, com os seus heterónimos, prova disso).
      Obrigada pelo cumprimento!

      Bastidores da Escrita

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