Show don´t tell é uma das regras de escritas de maior relevância, confere qualidade aos textos e envolve o leitor, agarra-o à leitura.

Show don´t tell_o que é e como usar. Bastidores da Escrita

Hoje venho explicar-te no que consta o Show don´t tell, e dar-te 6 dicas simples e eficazes para o implementares na tua escrita. Podes ainda ter acesso exclusivo a uma ficha de trabalho, para praticares.

Porque Show don´t tell é uma expressão inglesa, mantenho a sua versão original. A sua tradução é: Show don´t tell = mostra, não contes

O que é Show don´t tell?

Show don´t tell é uma regra de escrita de fácil assimilação, porém, com alguma complexidade para colocar em prática.

Show don´t tell, como usar. Inclui 6 dicas úteis e uma ficha de exercícios.

Mas a boa notícia é que, uma vez que compreendas a regra e a implementes, já não há voltar atrás: a tua escrita vai reflecti-la, intuitivamente.

O escritor Anton Checov resumiu o conceito assim:

Don´t tell me the moon is shinning; show me the glint of light on the broken glass.

 

A diferença entre Show e Tell

Como escritor, o teu objectivo deve ser provocar reacção a quem te lê, levar o leitor a sentir as emoções que o teu personagem está a sentir.

A distinção entre Show e Tell é que o primeiro invoca no leitor uma imagem mental da cena/emoção, e o segundo é uma constatação de uma acção/emoção.

Show

Show [mostrar] é uma ferramenta usada para atrair o leitor para dentro de uma cena. Ao usá-la, crias uma ligação entre o leitor e a tua cena/personagem. Isto acontece porque levas o leitor a interpretar o que se está a passar, em vez de lhe dizeres o que deve entender ou sentir ao ler-te.

Ao mostrares detalhes concretos e vívidos, o leitor vai criar as suas próprias conclusões – que serão as mesmas que as tuas, contudo, ele vai interpreta-las por si próprio, serão propriedade dele.

Show (mostrar) mantém o leitor activamente envolvido na história. Em oposição, Tell (contar) mantém-no passivo no enredo. Click To Tweet

 

Tell

Ao contares, estás a roubar ao leitor a oportunidade de descobrir, por ele próprio, o mundo que criaste, de acrescentar algo pessoal à cena – de se envolver. Não lhe permites que use a sua imaginação, as suas experiências e, até, a sua personalidade, para tirar conclusões sobre o que está a ler; estás a impor as tuas. Mantiveste o teu leitor do lado de fora da história, quando o pretendido é o oposto.

O leitor não quer ser dito que o personagem está zangado, triste ou feliz, ele quer senti-lo!

Quando um escritor mostra a história do ponto de vista do personagem, dificilmente o leitor a abandona – está a vivê-la com o personagem principal, os eventos são seus também. O leitor vê, ouve, pensa e sente o que o personagem vive, ele tem de interpretar o significado que o escritor imprimiu. Ele é parte da história – porque haveria de a abandonar?

Escrever usando Show don´t tell dá mais trabalho: precisas escamotear cada emoção. Mas pensa nisto: como leitor, preferes ter um arrepio na espinha por estares envolvido numa cena erótica, ou ler a mesma cena relatada como se fosse um documentário, nomeando cada sentir e emoção?

Preferes ser um leitor-espectador (excluído da cena), ou um leitor-personagem (parte do enredo)?

 

Vamos colocar em prática o que te mostrei até aqui? Seguem dois exemplos para compararmos a escrita com e sem a regra Show don´t tell:

Exemplo 1 : “O Rui estava com medo.”

Esta afirmação faz-te sentir alguma coisa? A mim não. Não significa nada, não mostra nada. Não te dei qualquer prova de medo, apenas de informei que o Rui estava com medo.

Se, por outro lado, te tivesse mostrado o medo do Rui, irias imaginá-lo receoso, irias viver o medo sem estares em perigo.

Quando mostramos algo ao leitor, estamos a envolvê-lo emocionalmente. Quando contamos, estamos a passar informação de forma desvinculada, não encorajando o leitor a ser parte da experiência.

Exemplo 2:  “O Rui estava cansado”

Que resposta emotiva te despertei? Também te sentes cansado? Imaginas, imediatamente, alguém cansado? Provavelmente não.

Mas se eu disser: “O Rui atirou o corpo dorido para a cadeira, as suas pálpebras fecharam-se contra a sua vontade, os sons à sua volta desvaneceram-se”.

Muito diferente, não? Neste exemplo, com certeza, reconheceste a sensação de cansaço, os indícios que te dei são-te familiares. Empatizaste com o Rui. Na tua mente, sentiste o cansaço dele.

Vamos, então, à aplicação prática da regra de escrita, Show don´t tell (não te esqueças de fazer o download da ficha de trabalho: além de exercícios tens o resumo deste artigo, para poderes consultar):

 

6 dicas para implementares o Show don´t tell

1. Usa os cinco sentidos do personagem

Transporta o leitor para a cena através dos cinco sentidos do teu personagem. Faz uma lista do que o personagem vê, ouve, sente, toca ou saboreia. Depois, reescreve a cena usando verbos fortes (mais sobre isto na dica seguinte)

Compara as duas afirmações:

  1. O quarto está sujo”
  2. “Quando a mãe abriu a porta, o cheiro das meias suadas penduradas na cadeira quase a fez desmaiar. No chão, garrafas de água vazias contrastavam com o colorido dos pacotes de aperitivos, espalhados pela alcatifa. Na secretária, folhas de papel amachucadas cobriam a camada de pó.”

Ao potenciar o sentido da visão e olfacto e oferecendo ao leitor mais descrição, ficou fácil imaginar o quarto sujo (e, até, respirar as meias suadas!).

 

2. Usa verbos fortes

Verbos fortes são os verbos irregulares, aqueles que, quando conjugados, sofrem alterações na sua forma básica. Por exemplo, o verbo dizer, quando conjugado, toma as formas disse, digo – perde o seu morfema básico, logo, é irregular/forte.

Os verbos fortes – em oposição aos verbos fracos (verbos regulares, que têm uma conjugação fixa) -, são dinâmicos e, muitas vezes, têm conotação de movimento. Por exemplo: amar, odiar, acreditar, pertencer, viver, são verbos estáticos. Por outro lado, os verbos: sair, andar, dizer, pensar, são dinâmicos, implicam uma acção do sujeito e são, por si próprios, descritivos.

Mas esta regra não é geral, verbos fracos são parte integrante da escrita e têm o seu valor. O foco desta dica é em cenas relevantes: se queres criar tensão ou pretendes que a cena se destaque, usa um verbo forte.

 

3. Evita advérbios

Um advérbio é uma palavra que muda o significado do verbo, adjectivo ou outro advérbio. Ao implementares a dica anterior, o teu verbo forte anula a necessidade de um advérbio.

Os advérbios distraem o leitor da história, eles acusam a tua presença – como escritor – na cena. Tu estás a atribuir significado a uma acção; e na história só há lugar aos personagens e ao leitor (tu estás a mais).

Sobre os advérbios, Stephen King, no seu livro On Writing, a memoir of the craft, diz:

With adverbs, the writer usually tells us he or she is afraid he/she isn´t expressing himself/herself clearly.

Exemplo: “O Rui caminhou, lentamente, pela avenida.”

Ao incluir o advérbio interferi na tua leitura. Em vez disso, podia ter-to mostrado assim:

“O Rui caminhou pela avenida, parou para cheirar as flores, admirou o azul do céu, apreciou os esquilos a trepar às árvores”

Se o Rui tivesse pressa não iria parar para cheirar flores ou olhar para o céu. Ao ser descritiva, mostrei-te a calma do Rui, não precisei nomeá-la.

Além disso, também te dei a conhecer que o Rui é uma pessoa sensível à natureza. Caso pretendesse que soubesses que o Rui estava irritado, mostrava-to a reclamar, por exemplo, com o barulho das crianças a brincar.

Ao mostrarmos uma cena estamos, também, a permitir que o leitor construa um perfil do personagem. Por ele próprio, sem nossa interferência.

A usares advérbios (que não é errado, devem apenas estar espaçados e serem usados se atribuírem real significado à frase), avalia as suas combinações com os verbos.

Na frase: “O Rui corre rapidamente”, porquê reforçar o verbo que, por si, indica velocidade rápida? Enfraquecemos o verbo e não acrescentamos valor à frase.

 

4. Sê específico

Quando mais específico fores nas descrições, mais fácil será o mostrar. Ao seres específico, vais preencher espaços em branco deixados pelo teu contar e vais tornar a tua cena dinâmica.

Não poupes das palavras, em vez disso, usa descrições para mostrares (como nos exemplos acima). Mas escolhe-as com intenção.

Evita termos genéricos: usa substantivos concretos, que criem uma imagem. Se queres dizer que o personagem tem um cão, mostra a sua felicidade quando o dono chega a casa ou uma cena em que o personagem o leva à rua.

Mais uma vez, não há necessidade de aplicares esta dica em todos os teus parágrafos, além de não queres uma descrição exaustiva, a especificidade aumenta o volume de palavras – encontra um equilíbrio.

 

5. Usa diálogo

O diálogo é a forma mais fácil de mostrar. Sendo acção em tempo real, vida a ocorrer, o diálogo é sempre mostrar.

Compara estas duas situações:

  1. “Distraído, o Rui, atravessa a estrada.”
  2. Sem olhar para o semáforo, o Rui atravessa a estrada. Os travões de um carro chiam no alcatrão, “Estás maluco?”. O grito do condutor fez o Rui saltar. Olha para o homem, que continua: “Mas tu não vês por onde andas!?”.

Na segunda situação, mostrei, através de diálogo, a distracção do Rui.

 

6. Foca-te em acções e reacções

Não contes as características de personalidade dos teus personagens: demonstra-as através das suas acções. Deixa o leitor ver como o personagem age e reage aos eventos do enredo, isso vai revelando da sua personalidade.

Se em vez de dizeres “ela é uma mulher má”, mostrares uma cena em que ela pontapeia um cão vadio, vais, imediatamente, convencer o leitor que ela não é boa pessoa.

Além disso, foca-te na linguagem corporal e nas expressões faciais: elas fazem parte da nossa comunicação. Quando conversamos, reagimos, logo, os personagens devem também reflectir isso.

Em cada emoção, reagimos de forma diferente. Por exemplo: eu posso engolir em seco quando estou nervosa mas se estiver preocupada a minha testa enruga.

 

Conclusão

Se aplicares as dicas que partilhei contigo e implementares o Show don´t tell na tua escrita, vais criar cenas dinâmicas e, consequentemente, prender o leitor à tua história.

Agora, faz o download da ficha de exercícios que criei. Praticando, vais adquirir prática e o Show don´t Tell passará a ser uma parte integrante e espontânea da tua escrita.

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Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

8 Comments

  1. Como existem muitas maneiras de dizermos a mesma coisa, de contarmos uma mesma história, essa habilidade que é o Show don’t tell parece ser uma das fundamentais que diferenciam excelentes escritores dos medianos e dos ruins. Adorei as seis dicas!!!

    1. Obrigada, Paulo, gosto imenso de receber feedback 🙂 E concordo contigo: esta é uma regra que categoriza escritores no que respeita à qualidade.

      Bastidores da Escrita

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