Recomecei a minha vida em 2014.

Para trás deixei um passado exclusivo de Portugal para construir um futuro em Inglaterra.

Depois de ter vivido nesse ano os piores acontecimentos da minha vida, transformei a dor da perda em força, a ausência em reencontro, o desespero em esperança.

No meu país ficou um filho, uma mãe e amigos. Deles trouxe saudade imensa; alguns retalhos do meu coração partido pertenciam-lhes. A dor mais profunda pertencia à minha cria, claro. Mesmo sendo um jovem-adulto, precisava de o ter debaixo da minha asa – o que veio a acontecer 9 meses depois. Tempo de uma gravidez, tempo dele aceitar, também, que havia chegado o momento do seu recomeço. Voou até mim e, aqui, construiu a sua nova vida. *tenho tanto orgulho*

No dia 19 de Outubro de 2014, exactamente às 00:03 minutos, a minha vida em Inglaterra iniciou. As primeiras horas foram vividas no aeroporto, à espera das 6 da manhã, altura em que um autocarro que me levaria à minha nova habitação – um quarto alugado na casa da própria senhoria (experiência que não correu muito bem e que fiz que durasse o mínimo possível: 3 semanas).

A contagem decrescente da minha vinda para Inglaterra foi feita com muita ansiedade, precisava urgentemente sair da vida que vivia então – de fugir. A infelicidade era imensa.

Porém, chegada ao meu Destino, o medo apoderou-se de uma só vez, que nem avalanche. Nas horas passadas no chão do atarefado aeroporto de Standsted, confrontei-me com a minha realidade: contrato de trabalho apenas apalavrado e um quarto reservado, também, apenas verbalmente. Naquela fria madrugada, com uma conta bancária muito aquém do desejável para a minha situação actual, o medo de não ter nada à minha espera ganhou uma proporção imensa – obviamente já tinha ponderado essa hipótese, mas fi-lo em ambiente seguro. Agora estava num país estrangeiro, sem conhecer ninguém. Absolutamente sozinha.

Confiei.

Como já referi, confio cegamente no meu instinto. Assim, afastei os pensamentos negativos e voltei ao sentimento que sempre me habitou, desde o momento que decidi emigrar: tudo ia correr bem.

Correu.

Ao sair do autocarro a minha senhoria aguardava-me e no dia seguinte assinei o meu contrato de trabalho.

Trabalhei infinitas horas extras durante meses: para pagar a vida dispendiosa de Inglaterra e para devolver os empréstimos que trouxe. E, também, para me manter ocupada – o mais ocupada possível. Ainda não estava preparada para confrontar um lar (quarto) vazio, preenchido somente com a minha presença. Precisava de me manter o mais atarefada possível.

As primeiras semanas da minha nova vida foram passadas em solidão absoluta – agora por opção. Não estava disponível para conhecer ninguém, para enlaçar relacionamentos, em mostrar-me ou percepcionar pessoas. Relacionava-me somente com colegas, superficialmente.

O tempo foi passando, a dor lancinante amenizando.

Até que, em inícios de Dezembro, uma (usual) noite de insónia mudou o percurso da minha vida.

No combate à insónia, um desejo incompreendido de escrever apoderou-se de mim. Sem saber porquê nem como, senti que naquele momento precisava escrever. Tal nunca me tinha acontecido.

Em jovem escrevi muito, mas em formato de diário e registo de pensamentos aleatórios.

Naquela noite foi diferente, foi algo muito mais profundo – precisava escrever sobre a minha tristeza. Tinha em mim a certeza que, ao fazê-lo, iria ter efeito terapêutico.

Às duas da manhã liguei o meu computador e comecei a escrever uma história ficcional, baseada na minha vida, no meu último ano.

Nessa noite encontrei um propósito. Nessa noite, conscientemente, comecei a escrever um livro.

Desorganizado, sem estrutura, enredo espontâneo e escrita prematura.

A partir dessa noite, os meus momentos de solidão já não eram uma fuga mas um encontro com a minha escrita.

Passaram-se algumas semanas e o livro ganhou consistência.

Sempre fui uma severa crítica do meu trabalho e com a escrita não foi diferente (agora, ainda mais acentuado). Sabendo isso e avaliando que estava perante uma escrita com potencial, decidi investir num curso de escrita criativa.

Já não havia retorno – tinha nascido uma escrevente. Agora tinha de a transformar em escritora.

Frequentei o curso, aprendi imenso, aprimorei a minha escrita.

O livro iniciado deu lugar a outro, começado após o curso e com acompanhamento profissional (revisão) do meu professor.

Tomei na altura a decisão de não dar continuidade ao livro inicial: não queria reviver a dor, precisava afastar-me dela. Criei uma nova história e em oito meses conclui o meu primeiro romance (por publicar).

Em simultâneo, explorei a escrita no formato de contos e dediquei-me a eles. Desde então, escrevi dezenas. Alguns foram reunidos no livro Ser Emoção, outros num livro não publicado e outros estão guardados e não partilhados.

Nunca mais parei de escrever.

Nunca parei de sonhar.

Nunca deixei de viver.

Persigo a felicidade, ambiciono crescimento, construo o meu caminho.

Escrevo, vivo, respiro, sorrio.

Sou feliz.

*Para ti, meu amor eterno*

 

Fotografia de capa: Northampton | Inglaterra


O meu livro de contos, disponível AQUI


Subscreva a Newsletter e receba um conto original. Clique aqui

Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

16 Comments

  1. Fico grata com sua visita! Há muito não lia alguém genuinamente entusiasmada com qualquer coisa e foi como a brisa marinha que sinto falta de sentir em meu rosto toda manhã… Refrescante teu blog. Visitarei mais! Parabéns pela construção e relato! Quem sabe me anima a voltar às letras… Muito bonito seu espaço!

  2. A vida parece ser mesmo quando não planejamos, e a sua história confirma isso. Que bom que você encontrou o seu caminho, que bom que você sonha, pois sem sonhar não se pode escrever. Vá em frente – você tem muito que dar. Um abraço da Mariluz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *