No  meu último artigo contei como me rendi à inspiração e como, empurrada pela música perfeita, comecei a escrever um livro novo.

De início resisti, afinal, estava já a escrever um. Mas não estava sintonizada, não era esse o estilo de escrita que tinha em mim. A história, apesar de bela, precisa de uma entrega diferente da que eu, actualmente, tenho para dar.

Os personagens da história, que apareceu subitamente, apoderaram-se de mim – exigem atenção, querem ganhar vida!

Incapaz de recusar essa experiência *é tão bom...*, acolhi-os.

Quando escrevi o Telma, vivi profundamente os personagens: eu fui a Telma, fui o Duarte e o Vasco. O que vivi, como escritora (e pessoa), foi brutal; tanto, que pensei ser uma experiência única, irrepetível. Até agora, em que, como avalanche, estas pessoas ficcionais inromperam por mim adentro a exigirem ganhar vida.

Porque quero dar o melhor à história e porque, como em tudo na vida, precisamos de aprendizagens constantes, enquanto criava espaço em mim para os personagens, fui ouvir alguns episódios de podcast sobre a temática de estruturar um enredo e sobre a construção de personagens – o processo anterior à escrita, portanto. Novamente, quero ir mais longe, quero criar personagens o mais reais, vivos e dinâmicos possível.

Em momentos de calmaria (contrastante com o modo “escrita-insana”), li alguns artigos sobre estruturação e planificação do enredo. Existem diversas metodologias e, em comum, a ideia de que só devemos avançar para a escrita quando temos toda a história perfeitamente estruturada: enredo, conflitos e resoluções, caracterização de personagens, cenários,…

O meu primeiro romance foi escrito sob uma estrutura muito sólida, por duas razões: 1) a história, parcialmente baseada em vida real, estava muito viva e definida em mim; 2) sendo o meu primeiro escrito “a sério”, segui fielmente as orientações do meu editor, nomeadamente criar uma estrutura.

Para o segundo romance – Telma –, permiti que a minha rebeldia e intuição tomassem as rédeas: comecei a escrevê-lo somente com a personalidade dela e do namorado perfeitamente definidas (e sentidas) em mim; com os principais conflitos alinhavados e com o final decidido.

A meio da história tive um afastamento: parei de escrever por 2-3 meses. Desencontrei-me dela, da Telma; a sua intensidade, paixão e adrenalina, desapareceram de mim. Não lhe podia dar vida sem o sentir.

Questionei-me se, caso tivesse estruturado toda a história, teria tido esta fuga. Talvez não; talvez com todo o livro à minha frente, à espera, somente, de ganhar forma escrita, eu tivesse conseguido escrever sem interrupções. Por outro lado, se não tinha os sentires em mim, duvido que a estrutura definida me fosse empurrar à escrita – se o fizesse, era escrita artificial (o que não faço).

Agora, nesta nova história, ainda a ganhar forma – conflitos a germinarem, resoluções ponderadas, personagens a serem questionados *ah!, que fase espectacular!* -, decidi ler sobre formas de estruturar um enredo.

Os autores destes artigos – alguns, escritores com imensa experiência e sucesso – garantem que só devemos começar a escrever depois de termos todas as cenas preparadas, resumidas numa frase. E, também, ter os personagens caracterizados ao ínfimo detalhe.

Ora, é aqui que me desencontro destas opiniões: os meus personagens ganham vida – personalidade – através da presença escrita. Eles constroem-se a si próprios na minha escrita. Por vezes sinto que perdi o controle sobre eles, que preciso que façam algo mas a sua personalidade e perfil ditam que façam exactamente o oposto.

E esta é uma das sensações mais fantásticas que tenho como escritora: sentir que os personagens, apesar de estarem dependentes de mim, lutam comigo, contrariam-me; exigem que as coisas sejam feitas à sua maneira. Aconteceu, em particular, com o Duarte, o namorado da Telma – eu tinha-o caracterizado diferente; mas ele próprio, na convivência com ela e com os conflitos que surgiram, ganhou uma personalidade diferente da que eu tinha planeado. E está tudo bem; foi um prazer gerir esta dicotomia, fazer braço de ferro entre mim e “ele”.

Outro facto que me leva a discordar com a informação contida em muitos dos artigos é o só começarmos a escrever no livro depois da estrutura estar completamente detalhada; incluindo as eventuais investigações sobre locais, negócios, descrições,… Que sofrimento seria! Não escrever na adrenalina? Ter de conter os dedos irrequietos; não libertar a insanidade no teclado!? Não consigo…

Assim, desde ontem – que assumi a posse da nova história *ou terá sido o contrário?* – encontrei um ponto de equilíbrio: “decorei” as paredes da minha sala com uma camada de papel e, munida de fones (a tocarem música à altura da tarefa), comecei a desenhar a estrutura do enredo. *começou por ser só uma parede, mas alastrou-se para outra*

Caracterizei, grosseiramente, os personagens (até agora: 4); despejei, aleatoriamente, conflitos e possíveis resoluções; rascunhei alguns cenários pensados. E quando o murmurinho se instala, sento-me ao computador e escrevo. Sem ordem, sem exigências ou rigor; sem saber se será produto final. Escrevo, apenas isso.

Só assim consigo que os personagens ganhem vida; só assim me consigo transformar neles…

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Aos escritores que me lêem, deixem a vossa experiência: estruturam, ao detalhe, os vossos escritos? Ou, como eu, deixam lugar ao improviso? Ou, ainda mais aventureiros, escrevem “no escuro”?

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Partilho links de alguns dos artigos e o site do podcast. Tenho muitos mais (nesta temática e não só) no meu Pinterest, passem por lá.

Podcast: Story Grid

Artigos: 25 ways to plot, plan and prep your story

Plot: 9 Ways of Looking at Plot

Three Ways to Plot With Index Cards

Imagem: Unsplash

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Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

6 Comments

  1. Estrutar a história VC amplia o universo ou a situação. A jornada do personagem começo, meio e fim. Exemplo no filme Cold Mountain na história VC estrutura acontecimento Guerra, romance, a saudade, conflitos dos personagens principais e acrescenta personagens coadjuvantes q amplia a história e agrega diretamente e indiretamente, desde que seja objetiva.
    Não sou escritor mas sou leitor é um pouco q entendo de minhas experiências lendo. Abraços;

    1. Concordo – a estruturação apoia o escritor em todas essas situações. Por outro lado, se feita ao detalhe, retira a espontaneidade da escrita, a vida própria que os personagens, no decorrer da escrita, conquistaram. Por agora estou a adoptar um meio termo: estruturo o enredo, a caracterização dos personagens e os conflitos. Na escrita vou deixar fluir tudo o resto.
      Porém, claro está, nada é estanque e, no processo, posso sentir a necessidade de fazer ajustes.

    1. Vai escrevendo curtas: contos ou microcontros e, se assim estiveres determinado, aventura-te numa mais longa, estruturando previamente todo o enredo – é um guia muito útil! Boas escritas ☺

      Bastidores da Escrita

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