Um escritor tem a capacidade de transformar a realidade.
O escritor tem poder.

Um escritor transforma a dor em recordações eternamente belas; as mágoas em camuflagens de sorrisos; a perda em adeus aconchegante; os sorrisos em força interior; os olhares dedicados em amor eternizado;…

Mas não se iludam! Os escritores têm, também, a capacidade de transformar um “não” em punhal cravado no coração; um Adeus em dor sufocante; um beijo recusado em pulmões áridos; uma paixão impossível em lágrimas sangradas.

O maior poder do escritor? Escolher a versão que lhe convém, a que prefere viver.
Enquanto a escreve, vive-a: tal como quer *precisa* que seja.

Na sua arte de criar, um escritor é quem escolhe ser, alimenta as emoções que tem fome.
Enquanto se entrega à escrita vive à margem da realidade, foge, esconde-se, reinventa-se.
Depois volta ao mundo real, onde, afinal, nada mudou. Mas vivemos lá! Fomos aquela pessoa, sentimos aqueles sentires, fomos perdoados, inesquecidos, amados; vangloriados, desejados, reconhecidos.

Quando escrevo faço-o em escrita ficcional, escrita adaptada ou em reprodução fiel da realidade. Sou eu, real ou não. É a minha escrita: a que escrevi sentindo, exasperando, chorando, rindo, ousando, erotizando-me. Sinto tudo: o real e o ficcional.

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Feita a introdução, respondo (continuo a responder) ao Charles do blog Amores Burlescos.

Neste artigo, pedi aos meus leitores para me desafiarem a escrever um bastidor de uma cena, parte, capítulo ou conto de um dos meus livros: o romance Telma, o livro de contos Ser Emoção ou um escrito aqui do blog. O Charles  pediu os bastidores do conto A Cabana (incluído no Ser Emoção).

Como resposta, podia falar da noite que passei em insónia com o Nick Cave a alimentar-me da sua sensualidade e melodias inspiradoras; podia partilhar que foi o primeiro conto que alguma vez escrevi; que foi a primeira vez que me senti lunaticamente escritora: neste conto descobri, violenta e deliciosamente, a força da escrita-insana.

Podia, também, dizer que escrevi este conto por necessidade íntima de expurgar emoções antagónicas, complexas, confusas, iradas.

Nessa noite não dormi. Em estado delirante: escrevi.

A Cabana contei uma história.

Escrevi sobre o amor deles: um amor impossível.
Quem nunca o viveu?

Se A Cabana é realidade ou ficção?

Ser escritor é ter poder.

É mentir dizendo a verdade, é ludibriar.

Ser escritor é transformar a realidade,

É dizer nada dizendo tudo.

 

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Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

22 Comments

  1. Ainda necessito ler Telma, mas Ser Emoção para para sentir exatamente esse poder de me fazer sentir diversos sentimentos com força. Realmente a escrita sempre traz um pedaço de seu autor, sendo ficção ou não.
    Beijos e um ano novo repleto de novas escritas e conquistas!

  2. Não conheço seus livros e ainda estou a conhecer seu blogue, sou recém-chegada e sou daquelas que se demora até em goles de café, o que dirá para conhecer alguém.

    Eu não gosto da palavra ‘poder’… me causa alguma preguiça a relação do homem com ela. É sempre um jogo onde as regras mudam o tempo todo ao bel prazer de quem se senta diante desse tabuleiro, eu prefiro a citação de Bakhtin: ‘a ficção nada mais é do que uma forma de experimentar a verdade’… e o escritor é um degustador de realidades. rs

  3. “Podia, também, dizer que escrevi este conto por necessidade íntima de expurgar emoções antagónicas, complexas, confusas, iradas.”

    Sabe o que mais me comove nesse conto, o ritual… O encontro é ansiado mas deliberadamente adiado para variar mais impacto. Para a escritora expurgar seus sentimentos como os personagens, através dos rituais, expurgar o mundo exterior… Obrigado por compartilhar este bastidor.

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