É na sua arte que um escritor desabrocha emoções que pensava inexistentes.

É na escrita que damos nomes a sentimentos ocultos *escondidos*, interpretamos ideias que rodopiam, por vezes em espiral, na nossa mente. Nas palavras escritas confrontamo-nos.

Escrevo ficção, escrevo real. Mas quer escreva num registo ou noutro, as emoções estão sempre presentes. Escrevendo real deixo-me transparecer (mesmo não o assumindo publicamente), na ficção empresto emoções familiares.

Na minha estante tenho dois livros não-ficção inspiradores, recorro a eles sempre que a desmotivação/exaustão se apodera. Do livro Light the Dark, writers on creativity, inspiration, and the artistic process, retirei esta frase incrível, do autor Walter Mosley.

[he] Show me something that I already knew but never been aware of

Mosley teve este momento de lucidez numa leitura, eu tenho esses momentos na escrita. Também na leitura, mas são raros – é na escrita que me confronto, é no dedilhar das palavras desordenadas, sem reter ideias ou filtrar sentires, que me descubro; que assumo e revelo o (tanto) que se passa dentro deste coração vivido.

Sei quem sou, sei o que sinto; sei do que gosto e não gosto. Dou nome às saudades, recalco perdas; vinco paixões. Mas na escrita… tudo ganha vida, tudo toma forma, que nem peça bruta de barro que, trabalhada, se transforma numa peça útil, com nome e com significado. Com entendimento.

Além do meu íntimo se revelar em textos sensoriais e prazerosos de ler (contrastando, muitas vezes, com o sentimento), a escrita permite a cicatrização, o aconchego, um: “vês, está tudo bem” ou “vais caminhando em frente…”.

Pela escrita mostro, a mim própria, coisas que já sabia mas não as enfrentava.

Porém, por saber disso, às vezes opto não escrevo no calor da emoção, na reacção do sentir: por vezes o desconhecimento é mais seguro que o confronto.

Demorei dois anos a escrever a despedida mais dolorosa da minha vida. Escrita é terapia mas é, também, dor.

Ser escritor é mais que escrever umas linhas, um livro, vários livros. É tudo isso, claro, mas é tanto mais.

Ser escritor é ter a escrita como batimento cardíaco, é precisarmos escrever por sanidade. É viver, em simbiose, com a escrita.

#souescrita


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Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

Ser escritor | O confronto de emoções
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8 thoughts on “Ser escritor | O confronto de emoções

  • 16 Março, 2018 at 12:20 pm
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    “Mas na escrita… tudo ganha vida, tudo toma forma, que nem peça bruta de barro que, trabalhada, se transforma numa peça útil, com nome e com significado. Com entendimento.” Excelente analogia.
    “Demorei dois anos a escrever a despedida mais dolorosa da minha vida. Escrita é terapia mas é, também, dor.” Ernest Hemingway falava: Não há nada na escrita. Tudo que você precisa fazer é sentar-se diante da máquina de escrever e sangrar. Parabéns pelo texto.

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    • 16 Março, 2018 at 5:04 pm
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      Obrigada eu pelo comentário, Guilherme. E Hemingway tinha razão, porém, esqueceu-se de enfatizar a dor do sangrar – por vezes custa estancar.

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  • 16 Março, 2018 at 8:03 pm
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    Dá gosto de ler tanto o confronto de emoções, quanto de ver tamanha dedicação. Seus dois livros Ser Emoção e Telma já estão baixados e na fila de leitura do meu kindle. Posso até demorar, mas te darei retorno sobre a leitura. Abraços.

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    • 17 Março, 2018 at 12:11 am
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      Obrigada, Cristileine! Abraço.

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    • 17 Março, 2018 at 12:12 am
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      Obrigada, Borboleta, um beijo!

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    • 18 Março, 2018 at 6:50 am
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      Muito obrigada por me incluir no seu texto P.R. Cunha. Um abraço desta portuguesa por terra inglesas.

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