Não me relaciono com escritores. O meu percurso na avenida da escrita é solitário e independente.

A única ocasião em que me partilho é quando me sento com a amiga C. e, juntas, fazemos um brainstorm sobre algum ponto de vista ou desenrolar da história.

Todo o processo de escrita; as frustrações, desilusões, dúvidas e euforias, são vividas a solo; eu – sozinha. O que, até certo ponto, não me incomoda: sou uma solitária *apesar de adorar a minha gang não passo sem a minha solitude*. Mas às vezes sinto falta de uma comunidade de seres-escreventes; de me sentir incluída em algo relacionado com este mundo.

Talvez estejam a pensar nos grupos temáticos nas redes sociais, como grupos de escritores no Facebook – been there, done that. Não funcionou comigo: há imensa “palha”, muita publicidade aos próprios blogs (que compreendo mas não é o meu propósito) e porque, sendo o Facebook é, para mim, uma distracção: se vou lá, fico por lá… Ainda estou incluída em dois mas prevejo a sua morte a curto-prazo.

Recentemente comecei a ouvir podcasts e, aí, apercebi-me que as turbulências que por vezes vivo na minha escrita – algumas, pensava eu, serem exclusivamente minhas *por serem absurdas* – é comum a quem se dedica a esta arte. Lendo artigos na Internet não me apercebi com tanta clareza deste facto; talvez a humanidade que a voz entrega ao momento ajude a essa proximidade e empatia. Foi um alívio! *não sou assim tão tresloucada*

Para o livro que comecei a escrever há poucas semanas (em fase de estruturação) vou trabalhar com um editor; o processo será vivido a dois. Vai ser um enorme apoio e vai, certamente, anular este isolamento que falo. Porém, é um editor: por muito que compreenda as fases, dúvidas e tudo o que pertence ao ser-escrevente em acção, não é um  companheiro de conversas soltas, disponível para devaneios a qualquer hora. É um profissional.

Sei que não estou sozinha nos dilemas de escrita, nos bloqueios artísticos, nas dúvidas incessantes, na sensação que só escrevo merda ou, em oposição, que sou uma escritora genial. Não estou sozinha porque todos sentimos isso, numa altura ou noutra. Mas estou sozinha porque no meu círculo de amigos/conhecidos sou a única escrevente. Em certas alturas *como agora*, provoca a sensação de isolamento.

Mas nunca me causa enregelamento: é avançar, sempre!

Na minha ilha invisto em aprendizagens, escrevo mais e mais; aperfeiçoo a minha escrita; vou rasurando ideias que ora são amachucadas e eliminadas ou passam a texto no caderno. Vou usufruindo, deliciada, das horas que passo sozinha aqui, no teclado, a ser um ou outro personagem, a imaginar e dar corpo a cenas,…

Sim: gostava de ter alguém que, no mesmo barco que eu, partilhasse os seus sucessos, fracassos, o que descobriu que funciona, o que odeia fazer; que trocássemos ideias do que fizemos hoje ou do que não conseguimos fazer,… *mas sempre com espaço ao tempo de solidão*

O blog ajudou-me à proximidade com semelhantes – tenho conhecido virtualmente seres escreventes que, em empatia ou no oposto, comentam e questionam as minhas inspirações, técnicas (ou ausência delas), manhas ou dicas. Adoro quando trocamos impressões sobre o nosso processo de escrita e como oferecemos mutuamente alguma dica ou perspectiva, um: “isto funciona comigo |Ah, vou tentar!”.

O blog reduziu o isolamento e por isso sou muito grata. Quem sabe se, aos poucos, se cria nesta morada uma comunidade onde podemos partilhar o nosso (turbulento) mundo.

Aos seres-escreventes que me lêem: também vivem esta sensação de vazio e não-pertença?

Imagem: Unsplash

~~~~~~~~


ira Gratuito

Adquira o seu exemplar, AQUI


Subscreva a Newsletter e receba um conto original. Clique aqui

Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

0 Comments

  1. Prezada escritora, me sinto como você! Não sou chegado a grupos nem temas literários de blogs, mas tráfego nas redes sociais para não virar um escritor ermitão.
    Escrevo, antes de tudo, pelo prazer de registrar meus sentimentos e visão do mundo. É, realmente, um processo solo…
    Como sou independente, só publicado via e-book, é uma gráfica que imprime livros por demanda, nem editor eu tenho!
    Mas tenho gostado desta solidão que é recheada de criatividade e personagens…
    Boa sorte, e obrigado por abordar um tema tão sensível como este!

  2. Tenho um grupo de escritores reais, de abraços e cafés, diálogos demorados e nos damos o prazer das trocas. Mas o processo é sempre egoísta e solitário mesmo. Não gosto de redes sociais, embora faça uso por causa do trabalho, mas confesso que me causa preguiça trafegar por lá. Fico ansiosa pelas férias, apenas para poder ficar longe de lá. É tudo muito poluído. rs
    Os blogues já permitem um diálogo mais atento aos mundos, sem paralelos.

    bacio

    1. Eu gosto de redes sociais, mas não para este fim. Blogues estou a aprender a gostar imenso (era um mundo que não “frequentava”).
      Mas nada vence esse grupo de gente real que falas. Apesar da solidão e egoísmo inerentes a esta arte, gente em comum sabe sempre bem ter por perto.

  3. Ainda não me sinto escritor… Até pelo que me propunha a escrever, não dava muito creditos a mim… Entrei nessas comunidades como leitor e passei a criticar como leitor beta algumas obras e fiquei impressionado com o ego de alguns autores… Com isso aconteceu algumas mudanças em mim… Me tornei mebos rigoroso com meu talento para a escrita… Agora acredito que poderei escrever algo relevante para outros leitores… Também passei a ser mais rigoroso comigo, criando estruturas, desenvolvendo mais personagens, revisando…
    Ainda não me considero um escritor, mas agora me sinto capaz de escrever um livro se houver dedicação…

  4. Olá novamente linda quero fazer 2 perguntas 1 como fazes para colocar as tuas imagens com essa moldura é um editor fotográfico? E a 2 pergunta gostava de te fazer uma entrevista sobre o teu percurso como escritora e publicar no meu blog numa pagina onde vai ser só para entrevista, estava a pensar em 15 perguntas. Se não quiseres tudo bem Beijinho linda

    1. Olá novamente 🙂
      1) A moldura faz parte do tema de wordpress que escolhi ontem (buttons 2)
      2) Terei muito prazer nessa entrevista, sendo que não é um percurso longo, pelo contrário. Podes contactar-me pelo email bastidoresdaescrita @ gmail.com
      Beijinho e obrigada pela consideração.

  5. Muito interessante, assistir à nascença de uma escritora… ?
    Eu não sou escritora. Apenas sou uma pessoa que escreve. Às vezes. É diferente.
    Seja como for, vejo a escrita como um destilado que idealmente se deseja puro, livre de contaminantes, de interferências. E isso é paradoxal, pois ao mesmo tempo a nossa escrita, enquanto produto de nós mesmas, nasce do amálgama de sentimentos próprios e experiências alheias que somos. Como disse Buckminster Fuller, sinto ser uma “função integral do Universo”, um somatório de experiências, que – felizmente! – em si nada tem de “puro”… Contudo, para mim, a destilação desse “bagaço” tem de ser um processo isolado, livre de interferências, se eu desejar ter o sentimento de obter a essência do meu ser, um extracto puro de mim própria… Compreendo a dificuldade da solidão, mas diz-me, enquanto escritora, não sentes que um editor pode acabar por ser um “contaminante”? Pode até tornar o produto final mais apetecível… E sei que por vezes o pragmatismo tem de sobrepor-se ao “ideal”… Mas como consegues tu lidar com esse aparente conflito? Boa escrita!

    Sarah Cardoso
    1. Quando me referia à solitude e necessidade de ter alguém, referia-me a outros seres-escreventes e não a editores (que também o são, à partida). O editor é recurso profissional da escrita; eu falo da essência da escrita, da entrega, das frustrações ou fracassos percebidos. Um ser-escrevente compreende as dores dos seus pares, assim, consegue apoia-lo, empatizar – às vezes é tudo o que (me) basta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *