As desvantagens de nos compararmos a outros escritores.

Competição é *deve ser* algo saudável, tal como é a comparação. Ambas inevitáveis e sempre presentes na nossa vida.

Como escritora (e pessoa), não vivo em competição com alguém – apenas comigo própria, quero escrever cada vez melhor. Porém, comparações, essas, não me faltam.

Comparo a minha escrita com a de outros seres-escreventes: o conteúdo, a técnica, os assuntos; a intimidade, a fluidez… Não me costumo deixar abalar nessa comparação *tem dias*. Estaria a mentir se dissesse que fico indiferente – às vezes sinto uma ponta de inveja, desejava escrever assim! Mas o resultado final é sempre o mesmo: “Leonor, escreve mais, estuda mais, aperfeiçoa-te”. E, assim, sigo em frente.

Mas o que me levou a escrever este artigo não foi a frustração que surge ao comparar o produto final mas, antes, o processo; a desvantagem que surge das comparações.

Se és ser-escrevente e acompanhas redes sociais relacionadas com escrita, já deves ter visto os memes “Não devias estar a escrever?” e lido artigos a falarem sobre formas de potenciar a produtividade de escrita; de encontrares tempo para escrever, mesmo que tenhas uma agenda apertada.

Não me interpretes mal: eu leio esses artigos e gosto, têm algum impacto em mim. Contudo, alguns, roçam o extremismo e chateiam-me.

Quem subscreveu a newsletter dos Bastidores leu a semana passada como me levei à exaustão e, por isso, como me obriguei a parar. Ainda em fase de recuperação, estou agora a organizar o meu tempo por forma a conseguir terminar o meu romance, escrever para o blog e cuidar da sua parte técnica (está cada vez mais lindo e funcional, não achas?).

Eu trabalho por turnos e, muitos dias, tenho turnos duplos, o que torna impossível criar uma rotina de escrita. Assim, a minha decisão foi criar rotina nenhuma: tenho o meu bullet journal onde, semanalmente, planifico os meus dias, e incluo as dezenas de tarefas que tenho diariamente (sim, são mesmo muitas!)

Os artigos que vou lendo e as “indirectas” que os escritores lançam nas redes sociais encaro como teasers para aproveitar o tempo o melhor possível. Sendo a escrita a minha prioridade e ambicionando eu, um dia, ter dela ter fonte de rendimento, tenho de trabalhar imenso, tenho de investir o meu tempo. A receita é só uma: dedicar-me afincadamente a escrever.

Contudo, EU opto por priorizar a minha sanidade mental e fazer coisas que me fazem feliz, além da escrita.

Um dos artigos que originou este artigo *desabafo* foi um que perguntava o seguinte: “Não tens tempo para escrever? Então diz-me o que se passou no episódio X do Game of Thrones”. O discurso que se seguiu foi quase punitivo, no sentido de atribuir culpa por se ver televisão em vez de se escrever. Por boas intenções que este artigo tenha – que acredito que tenha -, a sua leitura pode ter um impacto negativo. *Já teve comigo, sei do que falo*

Por querer priorizar a escrita, por querer publicar mais, por querer que o blog tenha mais subscritores e as redes sociais mais seguidores, entrei num ritmo enlouquecido de trabalho, em que, da minha vida, excluí quase tudo o que não estava relacionado com os Bastidores ou a Leonor-escritora.

Cheguei à exaustão – aprendi a lição (da pior maneira).

O meu novo método é agendar momentos de escrita/revisão matinais se estiver a trabalhar à tarde (não sou produtiva nesta área depois de um dia de trabalho) e agendar tarefas dos Bastidores para a tarde/noite. Como adoptei o meu maravilhoso Jack, no mínimo 1 hora diária é dedicada exclusivamente à nossa caminhada. Essa é uma prioridade de saúde física e mental para mim e uma necessidade para ele. É a minha hora diária em que não faço mais nada senão andar ao ar livre.

Além disso, choquem-se os autores de artigos como o que referi: vejo filmes e séries no Netflix! Hoje, por exemplo, depois de 16 dias contínuos de trabalho, folguei e a única escrita que fiz foi o artigo  que agora lês, nada mais. Há um mês atrás iria para a cama cheia de culpa, a fustigar-me por não me levar a sério, de, afinal, não desejar assim tanto vingar como escritora. Agora, o que digo? Que trabalhei demais durante 2 semanas e mereci um dia de descanso absoluto. Hoje passeei, ri, almocei fora com a minha cria, vi um filme espectacular, deitada no sofá aninhada com o Jack e, no final do dia escrevi este artigo, depois de ter alterado uma funcionalidade do site. Foi um dia pouco produtivo, mas foi um dia merecido.

Amanhã será um novo dia, onde agendei a revisão do meu romance entre as 8 e as 10 e meia da manhã, depois do passeio matinal com o Jack. Quando chegar do trabalho às 8 da noite, vou trabalhar num aspecto técnico do blog e se tiver cabeça, ler artigos sobre evolução de personagens. Antes de dormir, pretendo ler alguns artigos de blogs que sigo. Serão “só” duas horas e meia dedicadas à escrita mas é o meu tempo possível – não me posso obrigar a mais. Não me vou obrigar a mais.

Escrever é a minha paixão mas não irá, novamente, impedir-me de viver os prazeres da vida. Se isso atrasar o meu (potencial) sucesso… que seja!

Vamos conversar

E tu, também sentes pressão dos teus pares para produzires mais/melhor? Como lidas com isso?


 

Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

Ser Escritor | A desvantagem das comparações
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3 thoughts on “Ser Escritor | A desvantagem das comparações

    • 8 May, 2018 at 7:00 pm
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      Bem vinda, então, a este recanto, onde encontras disso tudo 🙂

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  • 19 May, 2018 at 5:56 pm
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    Oi, Leonor!
    Não raro, já li pessoas dizendo que suas referências são tais e quais, embora se considerem “bem menos” que tais e quais. São “fãs” e, tais quais fãs, querem ser admiradas como tais. “Ah, você lê Bukowski? Eu prefiro Bauman, e a ele me remeto.”

    A vaidade é um perigo constante, pois, diante do “destilador de pensamentos”, que é a pessoa de Letras, insiste em aparecer o espelho líquido de Narciso. Disfarçado, às vezes, de pia batismal da conversão humilde, mas, ainda assim, um espelho.

    Creio, sinceramente, que ideias alheias podem receber o filtro de cada um, mas no limite da abordagem de cada um. Quando tal filtro se torna um padrão que extrapola para um grupo (ou grupos), temos uma seita se formando.

    Cada mente é, realmente, um Universo em execução, paralelo a outros (universos). Cada universo, um leque de cores.

    Um abraço, muito sucesso!

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