Terminado o rascunho do teu livro, chegou o momento de o desmontares, virá-lo do avesso, questionar cada frase, parágrafo, significados; ir à caça de erros, preencher lacunas,…

Hoje, partilho 5 dicas para uma revisão de sucesso do teu livro.

Quem me acompanha no Facebook já percebeu que, eu própria, estou a fazer a revisão do meu novo romance – que não é novo, pelo contrário: foi o primeiro que escrevi (em 2015). Apesar de ter sido dado como terminado – incluindo revisão de um editor profissional – sempre soube que lhe podia oferecer mais: não no enredo, esse está perfeito, mas profundidade, mais personalidade, mais intimismo,… Algo que nunca soube especificar mas sempre senti. *como sabem, confio cegamente no meu instinto, portanto, aguardei…*

Para dar a esta história o que desejava, sabia que teria de amadurecer como escritora. Hoje, passados quase 3 anos, esse momento chegou.

Depois de muitos textos escritos, muita leitura, um curso de escrita criativa e muita (mesmo muita) leitura técnica, conquistei o que precisava para oferecer a esta obra o que lhe faltava.

Peguei no manuscrito e, encarando-o como um primeiro rascunho, comecei tudo de novo. Depois de seguir as dicas que hoje partilho, vou prosseguir para a fase seguinte:

  • Edições e revisão pessoal (as que forem precisas até o sentir completo);
  • Envio para leitores beta;
  • Consequentes alterações (se as houver);
  • Nova edição e revisão geral;
  • Edição profissional;
  • Revisão final.

Neste artigo, falo somente do processo inicial, aquele que se segue à palavra “FIM” da primeira versão do nosso livro. É um processo que pode ser catastrófico – o confronto com o rascunho (escrita bruta, cheia de imperfeições) faz-nos, muitas vezes, querer parar, mandar tudo pela janela. Mas, seres-escreventes que somos, continuamos em frente!

Vamos lá, então, às dicas que vão tornar o teu processo de revisão mais fácil e eficaz:

5 dicas para uma revisão de sucesso

1. Não trabalhes no manuscrito

Quando terminamos de escrever um livro estamos envolvidos na história, os personagens estão muito vivos dentro de nós – não somos isentos para criticarmos o nosso próprio trabalho. Assim, o primeiro passo é afastarmo-nos da história.

O ideal é não olhares (nem pensares) para o livro entre duas a quatro semanas, podendo ser mais tempo, claro. Será o necessário a que, quando voltares, tenhas um olhar isento e objectivo.

Esta primeira fase serve para abordares o teu manuscrito como leitor e não como escritor – ou o mais aproximado possível dessa situação (porque escritores seremos sempre).

Quanto maior for o distanciamento entre ti e a tua escrita mais produtiva será a revisão.

Sugestão: neste tempo, começa a trabalhar no teu próximo livro, escreve um conto, pesquisa, lê mais, experimenta outros estilos de escrita, como poesia ou crónica,…

2. Imprime o manuscrito

Agora que já consegues ter uma nova perspectiva, imprime o teu manuscrito.

É muito importante ler a obra num formato diferente, os nossos olhos estão habituados ao monitor e erros gramaticais passam, facilmente, despercebidos. Antes de imprimires, activa o corrector automático para uma pesquisa geral e analisa os erros apresentados.

Acredita que, depois de impresso, vais encontrar gralhas e erros – no papel sobressaem mais que no monitor.

É, também, na leitura em papel que nos apercebemos de palavras/frases/expressões repetidas ou de sinónimos que são mais adequados às palavras que escrevemos em primeiro lugar.

3. Lê o teu manuscrito sem editar

Este vai ser um grande desafio. A primeira versão do teu livro é apenas um rascunho, é a tua escrita regurgitada, não pensada, debitada com espírito crítico. Poderá ser * é* horrível, levar-te ao desespero, incitar-te a desistir, a duvidar das tuas competências como escritor. Resiste a essas tentações – é apenas um rascunho! É um expurgar da história dentro de ti, o melhor ainda está para vir.

Lê, assimila a história, sente os personagens – e a sua evolução ao longo da história -, identifica os espaços em branco no enredo, incongruências, cenas ou diálogos que são dispensáveis ou outras que merecem ser incluídas, analisa o ritmo do enredo, os conflitos,…

Sublinha e tira notas gerais – apenas notas, ainda não estás a rever.

Anota inconsistências, perguntas a serem respondidas ou erros a serem corrigidos (nomes trocados, datas incoerentes,…). Não te preocupes ainda com erros gramaticais ou de sintaxe.

4. Lê o manuscrito em voz alta

Ouvir o produto da tua escrita em voz alta é uma forma eficaz de detectar incoerências e erros.

Esta fase serve, também, para fintarmos o nosso cérebro.

Podemos ler o manuscrito dezenas de vezes mas haverá sempre um erro que vai sobreviver ao extermínio; o nosso cérebro tem uma capacidade incrível de nos mostrar o que queremos ver. Ao lermos em voz alta, a velocidade de leitura é mais lenta e damos voz à escrita: erros serão agora, com certeza, identificados.

É na leitura em voz alta que vamos dar vida à nossa escrita. Quantas vezes lemos uma frase que não faz sentido e, quando fazemos a leitura em voz alta, identificamos sem dificuldade o erro? Pode ser, apenas, a ausência de uma vírgula, uma frase que está longa e precisa ser repartida, uma frase cuja ordem precisa ser invertida. Detalhes que na leitura não saltam à nossa vista mas lidos em voz alta ganham outra dimensão e podem, então, ser rectificados/melhorados.

É também na leitura em voz alta que nos apercebemos das aliterações (repetição das mesmas letras, sílabas ou sons, na mesma frase).

Tudo o que detectares que precisa ser corrigido, alterado ou melhorado não o vai ser nesta fase – vais apenas tomar nota na margem da página ou, se preferires, num caderno *resiste a editar!*

5. Avança, sem medos, para a revisão

Agora que já detectaste erros, vácuos na história, datas trocadas, cenas a desaparecer e outras a serem criadas; que tens perguntas sem respostas, entre outras tantas possibilidades que surgem na leitura, lança-te, sem medos, à revisão do teu livro.

Depois de terminada, poderás estar preparado para passar à edição ou sentir que precisas repetir o processo. Faz o que tiveres de fazer até o resultado final corresponder às tuas expectativas.

Mas, atenção, não esperes perfeição! Como diz Khaled Hosseini:

You may not be able to express yourself perfectly, but your audience is composed of imperfect listeners

Cria expectativas reais, define resultados alcançáveis. Dá o melhor de ti e, no final, terás escrito um livro que te orgulhas.


Vamos conversar!

Partilha nos comentários como organizas o teu processo de revisão, quais as estratégias que funcionam melhor contigo?


Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

Ser Escritor | 5 dicas para uma revisão de sucesso
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6 thoughts on “Ser Escritor | 5 dicas para uma revisão de sucesso

  • 9 Abril, 2018 at 10:55 pm
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    Dicas muito interessantes e que sistematizam algo que, empiricamente, por vezes fazemos.

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    • 9 Abril, 2018 at 11:05 pm
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      Obrigada 🙂

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  • 11 Abril, 2018 at 6:04 pm
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    Considero dicas interessantes, sobretudo, o mais importante é ler, em voz alta ou não. Há muitos escritores que não lêem outros autores e nem mesmo a si próprios. Várias vezes, engasgo quando ouço relatos de ‘não sou leitor. Sou escritor’. Sempre considerei que uma coisa dependia da outra, mas ao que tudo indica os contemporâneos estão a inventar modalidades curiosas. O que talvez eles ainda não tenham percebido que ao cair dos olhos em um original, sabemos se a pessoa a escrever o tal manuscrito lê ou não lê em seus bastidores…

    bacio

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    • 11 Abril, 2018 at 8:26 pm
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      Eu peco pelo oposto, leio e releio a minha escrita vezes sem conta, tenho de me impor parar.
      Quanto ao relato de ser escritor e não leitor, para mim é inconcebível, ler pela arte, pelo prazer e, muito importante, por aprendizagem.
      Bacio!

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      • 11 Abril, 2018 at 10:22 pm
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        Ao ler-te aqui em vosso sítio, cara mia, já se percebe que és também uma leitora. O que para mim já basta para voltar a ti. rs

        bacio

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        • 11 Abril, 2018 at 10:23 pm
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          Muchas gracias 😉

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