Tenho uma cicatriz.
É grande, com dezenas de pontos cosidos.
Ninguém a vê, nem sequer eu: nunca a vi. É uma cicatriz que não se vê, só se sente.
Eu não a queria, sabes? Mas fizeram-na.

“Onde está essa cicatriz?”
Não a vês?
Não, claro que não, está escondida. Não que eu a esconda, mas está num sítio tão recôndito que ninguém a consegue ver. Nem mesmo eu. Mas sinto-a: é laminada, pontiaguda. Às vezes espeta-me, faz-me sangrar por dentro, rouba-me o ar.
Quem olhar com atenção consegue vê-la, eu sei que sim. Mas tem de ver sem olhar para ela. Só se vê olhando para o meu olhar. Experimenta.

“Tens uns olhos lindos.”
Obrigada, mas não é dos meus olhos que estou a falar. É do olhar. Fixa o olhar no meu: vais ver a cicatriz.

“Não. Não vejo nada.”
Não faz mal. Ela não pode ser partilhada, só a mim pertence. Ou eu a ela, não sei.
Um dia disseram-me que podia fazer uma cirurgia para a tirar, mas recusei.

“Mas se ela te magoa, a operação é boa ideia”
Sim, magoa. Mas, sabes, a cicatriz não está sozinha. Ao princípio esteve – não sei quanto durou o princípio, mas sei que houve um princípio e que, depois dele,…

“Um fim?”
Não sejas tonto. Nunca haverá fim.
Continuando: ao princípio a cicatriz estava sozinha, ocupava o coração todo. Todo!, imagina. Doía tanto. Doía todos os dias, a cada hora do dia, a cada respirar que dava. Um dia, lembrei-me de experimentar um truque.

“Que truque?”
Respirei fundo, mesmo muito profundo, enchi o peito de ar e rebusquei uma memória linda. Quer dizer, não foi bem uma memória: foi um sentir. Fechei os olhos e fui buscar dentro de mim o sentir mais lindo que senti até hoje. Nesse momento, o coração cresceu. Muito muito rápido – para não dar tempo à cicatriz de crescer também -, fiz uma tatuagem do lado direito do coração.
Quando voltei a respirar normalmente, a cicatriz já não conseguia ocupar o coração todo, dividia-o com a tatuagem: uma frase.

“O que diz a frase?”
Sempre e para sempre.
Desde o dia que fiz a tatuagem, a cicatriz perdeu poder, o coração já não é todo seu; agora divide-o com a memória feliz que tatuei.

“Que memória é essa?”
É um abraço. Quer dizer, não é só um, são muitos, milhares deles! Mas todos eles iguais, parecem um só.
O interior desse abraço era o meu sítio preferido. Era paz; ouvia-se um bater de coração ritmado, belo. E o abraço falava, dizia em voz genuína Amo-te. Era o melhor lugar do mundo para estar.
Fiz a tatuagem desse abraço no meu coração, do lado direito da cicatriz. Tatuei o calor dos braços em redor do meu corpo; o som do bater do coração sintonizado no meu; tatuei a voz protectora e o beijo tranquilizante. Esse abraço é Amor.

“Os teus olhos estão a chorar.”
Sempre que falo da tatuagem eles fazem isso. E também quando falo da cicatriz – mas com ela dói.

“Não há outra forma da cicatriz não doer?”
Dizem que sim, que há uma coisa que até cura.

“O quê?”
Algo chamado Tempo. Já ouvi falar, até me explicaram como funciona mas não devo ter aprendido: a cicatriz continua cá, os olhos continuam a chorar.

“Quanto Tempo passou?”
Não sei. Às vezes parece que foi ontem, outras, que foi há uma década. É muito confuso. Deixei de perguntar, deixei de falar nisso. Ninguém vê a cicatriz, ninguém sabe a sua forma, a sua cor de sangue, a profundidade da dor, os danos que fez. Só quem olhar profundamente no meu olhar a vai conseguir ver.

“Já alguém olhou?”
Não sei, eu fecho os olhos.

“Porquê?”
Já viste se esse olhar traz consigo o Tempo?

“Mas é a cura: ia deixar de doer.”
Mas a cicatriz é minha, foi-me oferecida. Sem querer, mas…
Quem serei eu sem a minha cicatriz? Além disso, fiz a tatuagem, para ajudar a doer menos.

“Mas não dói menos”
Não. Mas dói acompanhado.

“Do abraço.”
Sim, do abraço de Amor.
Se eu curar a cicatriz, irei retalhar o coração. Não quero retalhar o meu coração!
Se doer muito muito, volto a fechar os olhos, encho o peito com muito ar, faço o coração crescer e…

“Sentimentos felizes.”
Sim. Para serenarem a dor da cicatriz.

“E quando o Tempo passar?”
A tatuagem é eterna, o coração estará sempre abraçado.

Sempre e para sempre.

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Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

14 Comments

  1. Me lembrou o refrão de uma música da P!nk

    “Where there is desire, there is gonna be a flame – Where there is a flame, someone’s bound to get burned – But just because it burns, doesn’t mean you’re gonna die – You gotta get up and try, and try, and try’.

    bacio

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