Ele pergunta-lhe: “O que sentes?”

As mãos dela movem-se, contrariam o corpo inerte. Pelo tacto, encontra o primeiro botão da camisa: desaperta-o, depois os outros. Desliza a peça de roupa pelos ombros, larga-a.

Leva a mão ao peito, arrasta-a na pele fria, pousa-a no coração. Sente o vazio entre as costelas, com firmeza empurra os dedos, esburaca o espaço. Penetra-o.

A sua expressão de dor encontra a dele, perplexo.

A mão sai do peito, os dedos ensaguentados trazem o coração – seco, pálido. Entrega-lho. “Sinto nada”.

Ele acolhe o coração nas mãos, acaricia-o com o polegar.

Os olhos opacos acompanham o movimento dele. Em sussuro, pede-lhe o órgão inanimado de volta, o seu corpo está a desfalecer.

Com o coração aconchegado nas mãos, ele leva-o aos lábios e entrega-lhe um beijo. Suave, dedicado.

O peito dela enche-se de ar, voltou a respirar!

Ele fecha as mãos, cobre o coração – agora rosado e prenchido – e segreda-lhe algo.

Aproxima-se dela, encosta o coração à abertura sangrenta do peito e, gentilmente, devolve-o.

Respiram fundo, sintonizados.

A pele dela cicatriza, o olhar ilumina, um sorriso brota nos lábios.

“O que fizeste?”

“Ofereci-te o meu amor. Dei-te a minha vida.”

Ele agacha-se, agarra a camisa, coloca-lhe os braços nas mangas, ajeita-a nos ombros e, um-a-um, fecha os botões.

Dá um passo em frente, anula a distância que os separava. Pousa-lhe um beijo nos lábios e vai-se embora.

As lágrimas doridas dela aniquilam-lhe o sorriso.

Voltou a sentir.

 

Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

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