Quem me acompanha sabe que os meus escritos, sendo ficção, têm sempre um pedaço de mim. Cada conto que escrevi contém algo que vivi ou senti; nem que seja apenas uma frase, uma ideia ou um sentir.

Eu estou sempre presente na minha escrita *poderá ser diferente?*

Hoje trago os bastidores de uma cena do conto A Cabana, incluído no meu livro de contos Ser Emoção.

Já escrevi sobre este conto, mas como resposta a um desafio e sobre a banda sonora que o musicou.

Hoje, escrevo sobre os bastidores desta cena d‘A Cabana:

A cada sexta-feira alternada encontram-se num sítio longínquo e, daí, vão juntos de mota até ao refúgio.
O silêncio que a viagem impõe não os impede de comunicar entre si e, também, de permitir que a paisagem comunique com eles: o que a visão captura; os cheiros profundamente inspirados; as sensações que a pele absorve; os sabores salpicados que experimentam; os sons que embalam a audição; e as emoções que vivem no percurso.
Mais tarde, antes de revelarem o segredo, adoram conversar – em murmúrio – sobre o que sentiram nesta viagem.

Um dia, há muito tempo atrás – cronologicamente longínquo mas emocionalmente perto – tive uma mota. Não a conduzia, era a pendura.

Guardo recordações maravilhosas dos passeios que fazia, de capacete aberto, a percorrer avenidas à beira-mar ou em paisagens campestres.

Esta cena do conto foi escrita recordando uma viagem específica. Foi uma viagem sem destino: somente um casal apaixonado a passear de mota num belo dia de Verão.

Lembro-me de respirar profundamente o ar com fragrância a pinheiros, de me arrepiar com a brisa fresca, de sorrir quando o mar surgiu no horizonte. Recordo (com saudade imensa) o aconchego do abraço na mota, a pertença, a comunhão do momento.

O que escrevi foi o que vivi – não existem palavras suficientemente belas para transpor para o papel a sensação divinal daquela viagem, para descrever as emoções vividas, sozinha mas a dois.

Vivi esta viagem no passado mas a memória permite-me continuar a vivê-la no presente – em descrições, em sentires ressuscitados, em sentimentos eternos.

Nunca mais viajei de mota, nunca mais respirei a maresia do meu país nem caminhei por entre os eucaliptos da minha cidade. Isso são memórias longínquas, experiências irrepetíveis; um passado despedido, vivido apenas na ficção, no mundo da escrita.

Escrevo, também, para eternizar momentos felizes.


Ser Emoção: disponível aqui


 

Ser-escrevente, ser-viajante. Movida a música e cafeína. Inspirada por sensações, sentires e emoções (eternas e efémeras), amores e desamores.

6 Comments

  1. Que interessante… O primeiro bastidor desse conto (e escolhi esse pelo ritual descrito) foi muito abstrato… Agora sim contou detalhes concretos… E como torna interessante o que disse, que na memória torna a vivê-la, e no texto fez questão de dizer que os personagens viviam isso todas sextas-feira alternadas… Você viveu apenas uma vez, mas para seus personagens repetiu diversas vezes e em ritual, como acontece em sua memória. Muito lindo…

    PS.: me deliciei quando percebi que mota é moto aqui no Brasil e pendura é garupa, carona.

    1. Olá, Charles.
      Este conto tem vários bastidores. Esta cena em particular foi o descrito neste artigo, o que ofereci aos personagens. Mas o conto, em geral, foi escrito com outro pedaço de mim em erupção… (daí a resposta ao teu desafio ter sido mais abstracta). Ser escritor é maravilhoso, não é? Podemos criar ficção, misturar realidade é, até, de várias realidades formarmos uma única história!

      PS: deliciaste-te porquê? Conta!

      Bastidores da Escrita
    1. Olá, Marcos. Lamechas são histórias de amor cor-de-rosa em que tudo corre bem sem conflitos, os amores são perfeitos e todos vivem felizes para sempre. Excesso de romantismo 🙂

      Bastidores da Escrita

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